Publicado por: fgalvao | Abril 22, 2007

Meditação sobre a filosofia portuguesa

Por Leonardo, Revista da Filosofia Portuguesa *

Os testemunhos pessoais nas homenagens não têm em geral qualquer valor intelectual. São discursos de elogio em crescendo de emoção e com uma única finalidade: mostrar a singularidade de uma pessoa e presumir a sua infinita bondade. É um traço comum a todos os elogios fúnebres. Fará a autêntica homenagem aquele que renovar e prosseguir o fio condutor que por um determinado autor passou e se projectou no futuro, o que fizer do homenageado não uma figura tutelar mas um epígono.

No balanço das vias por que tem seguido a filosofia portuguesa há dois aspectos que nos importam salientar:
— O primeiro, é a realidade (e até a materialidade) de um conjunto de obras que constituem um corpo, ou património, sistemático e heterogéneo, ao qual se chama filosofia portuguesa;
— O segundo, é a forma como um grupo de pessoas em torno desse movimento o podem ou não renovar, representar e projectar no futuro.
O espírito humano não é dominado pela vontade, ainda que a vontade opere, enquanto disposição da alma, para a realização de algum movimento, quer dizer, a vontade não está na origem da acção.
O espírito revela-se na natureza mas só se reflecte no homem, só no homem ele se vê ao espelho. O confronto entre filósofos e agnósticos (sociólogos) está no modo como vêem essa reflexão. Para os primeiros, o mundo é visto pela reflexão que o homem faz ou opera para compreender o espírito e a isso chamam sabedoria; os outros, os agnósticos (sociólogos), não se reconhecem nessa reflexão nem se reconhecem como espelhos fazendo do mundo apenas um acaso de que o homem participa nas mesmas condições e parâmetros em que tudo aparece e existe e com o mesmo valor e destino. Tudo aquilo em que percebem haver uma distinção entre o intelectual e o natural resulta, para os agnósticos (sociólogos), de uma diferente fase de desenvolvimento sem qualquer alteração de grau ou de plano da realidade.
Constitui-se, assim, uma separação no que à acção diz respeito e à sua legitimidade: para os filósofos o mundo enquanto natureza é para ordenar e reduzir ao movimento do pensamento especulativo que forma, a partir da reflexão do espírito, o seu discurso e, por isso, a organização e a finalidade da existência estão na superação das condições e limites em que o ser se revela. Para os agnósticos (sociólogos) o mundo é a forma em que a natureza se dá não havendo lugar a qualquer superação mas, apenas, adaptação e conformidade das formas acabadas e fixas que estão estabelecidas pelas relações conhecidas.
Para os primeiros, o espírito, tem por finalidade a liberdade que é o saber de si, ou o saber da sua autêntica razão, para se realizar para lá das condições de limite e finitude em que aparece; para os segundos, a liberdade é a conformidade material da existência com as tendências e inclinações que nascem com o homem e com toda a natureza e a garantia de que as relações naturais e suas condições se mantêm sem a introdução de qualquer forma que pudesse perturbar esse fluir determinista.

O movimento da filosofia portuguesa entende que a filosofia é o esforço para o saber especulativo do absoluto através da actividade da razão criadora (Álvaro Ribeiro, O problema da filosofia portuguesa, 1943); entende, também, que a filosofia é uma iniciação no saber da verdade e que se ensina com a convicção que não se pode ensinar porque depende de cada um aceder a esse saber absoluto, ou saber da verdade (José Marinho, Filosofia: Ensino ou Iniciação, 1972); em Leonardo Coimbra, a filosofia é o órgão da liberdade; finalmente, a procura dessa liberdade que é a suspensão do pensamento de um autêntico absoluto, e não de uma ilusória sombra desse absoluto, é realizada pela procura, através do pensamento, do saber da verdade a partir da existência humana — o saber da verdade é o que sempre se sabe e sempre se ignora; sempre se sabe porque o pensamento não é em vão e sempre se ignora para que o pensamento não seja em vão (Orlando Vitorino, Refutação da Filosofia Triunfante, 1976).
No conteúdo do pensamento destes filósofos estão definidos quatro pilares do que designámos por sistema da filosofia portuguesa. Tiveram o dom, ou a percepção, considerando toda a história e toda a filosofia, do momento da síntese que importa à humanidade no seu caminho de reflexão do espírito e não se perderam em contra-análises estéreis nem em discussões infrutíferas. Através deles a filosofia penetrou na realidade (todo o pensamento penetra a realidade e toda a realidade é penetrada de pensamento) e não se isolou em castelos de marfim sem comunicação com os outros. É um movimento aberto à livre iniciação.

A filosofia como órgão da liberdade e especulação do absoluto não tem por finalidade a instauração de um poder material nem procede por propaganda. Sabe que a iniciação não depende, como o conhecimento sem autognose, da vontade dos indivíduos nem das corporações. A filosofia procura a ética e a ética, se bem que não se oponha à moral, propõe ao homem o autêntico sentido da responsabilidade e que é o de responder cada um de acordo com o seu pensamento sabendo que o seu pensamento é o que em si se pensa e não um produto do seu interesse material ou psicológico mais imediato. Este entendimento da expressão da liberdade no indivíduo é uma ameaça para o pensamento colectivista e materialista dos agnósticos (sociólogos) que procura a verdade no género e não no indivíduo. O género (ser genérico de K. Marx) é o fundamento do igualitarismo e da irresponsabilidade que permite reduzir os homens a instrumentos de uma inconfessada estratégia de poder absoluto, poder material absoluto. É uma negação do homem e da sua humanidade, a qual se propaga pela inveja e pela qual se tenta fazer crer a cada um que a igualdade pode tirar legitimamente a cada outro a diferença que não suporta. Cartilha fácil, e para fracos, propagável se o homem não for educado para a humanidade que lhe é própria e que são os valores que transcendem a simples existência natural e a sua condição e resumirem o movimento ao mesmo apetite dos animais que se devoram na cadeia alimentar.

Entre a publicação de O Criacionismo de Leonardo Coimbra em 1912 e a Exaltação da Filosofia Derrotada de Orlando Vitorino em 1983, o mundo moderno instaurou grandes alterações que há muito se preconizavam pelo menos desde o século XVII com o triunfo institucional do cartesianismo e com o triunfo da ciência moderna outorgada pelo kantismo no século XVIII. Com Hegel houve uma inversão que, tendências materialistas rapidamente tentaram, e com sucesso, contrariar gerando o Marxismo o qual, infinitamente inferior ao positivismo, se tornou num instrumento de propaganda com evidentes resultados na vida social pela simplicidade com que se pode semear a suspeita, a inveja e a irresponsabilidade. A suspeita porque o igualitarismo não aceita o diferente, a inveja por não suportar a diferença, a irresponsabilidade porque escondido e indiferenciado no grupo não se está obrigado aos incómodos da vida ética em que a individualidade e a consciência tenham de responder por si mesmas.
Foi num mundo em que estas alterações tiveram a sua expressão social que o movimento da filosofia portuguesa fez escola e se desenvolveu. É claro que não teve tempo de antena nem sequer o reconhecimento das instituições, como continua a não ter, não obstante ter sido o único movimento filosófico português em Portugal e na sua história.
É preciso dizer que o facto de se chamar movimento da filosofia portuguesa nunca implicou qualquer tipo de formalização institucional nem qualquer compromisso social entre todos os que se sentaram livremente nas mesas dos cafés por onde passou este grupo durante vários decénios. É, também, preciso dizer que por ter sido o único movimento filosófico genuinamente português não significa nem que a filosofia portuguesa seja regionalista porque se é filosofia é universal, nem que se tenha arvorado alguma vez em dona da História de Portugal que procurou interpretar e compreender a partir da especulação filosófica mas que não pretende ter criado , gerado, nem produzido.
O ponto de vista do filósofo é um ponto de vista humilde e não arrogante. Não tem por finalidade participar nas escaramuças pela visibilidade, pelo reconhecimento e pelo poder. O filósofo parte da sua alma, do seu ser profundo, para chegar à luz que lhe revele o mundo e a sua libertação. Nasce e morre envolto em silêncio mesmo quando é assassinado. É fácil esquecê-los e não considerá-los, lançando-lhes o chavão que são incompreensíveis ou que os seus assuntos são tão próprios que não importam à humanidade. É certo que a humanidade não poderá compreender em tempo real os filósofos como consegue absorver as simplicidades raciocinantes dos agnósticos (sociólogos), mas o seu papel é o único verdadeiramente decisivo para o futuro da humanidade.

Escrito por João Luis Ferreira

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Responses

  1. Parabéns pelo belissímo texto! Enxuto, redondo, lógico e emocionante.

  2. Nunca percebi ao que se referem quando falam em Liberdade…o pensamento é subsequente e consequente nunca livre…não opta exerce-se, REALIZA-se….Revela-se nas suas funções de proximidade para com outros Objectos através da sua circunstancia particular ,ou seja a sua geometria Extrutural no Espaço e no Tempo integrando-se assim num para-objecto ou numa Ultra-extrutura que o consigna e delimita exaustivamente…
    O mesmo acontece com o Individuo pelo qual ele se opera…

    O Filosofo tem por papel uma certa forma de consciencia de auto-conhecimento transportando-se do Implicito para o Explicito no seu reconhecimento de Si e da sua Cósmogonia…A sua realidade não se altera pelo pensamento porque este ( o pensamento) procede como consequencia de um facto á priori que é mais que consciencia é a Coisa em Si…

    Não é Espelho é a Coisa e esta é resultado de um colectivo, de uma Totalidade Holistica que a desenha e delimita e pela qual esta propria Totalidade se Revela na sua interacção de proximidade, ou seja função, para com o objecto pensamento e para com a Entidade Pensante …

    A Liberdade será então uma expressão da circunstancia subjectiva do particular, será pois conjuntura… no fundo a negação de funções que não estão proximas para o Objecto ou grupo pensante…

    ( Comentei aspectos do texto não a sua meta-ideia….)


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