Publicado por: fgalvao | Maio 29, 2007

O que Bolonha poderia ter sido

Mais uma vez, cortesia do utilizador strasser.

Ao contrário de alguns colegas meus na universidade, penso que todo o processo da reforma de Bolonha poderia ter sido, para nós, se houvesse um minimum de coragem política por parte de quem deveria tê-la, uma enorme oportunidade. Assim, na falta da dita, e como é habitual neste tipo de reformas, a oportunidade converter-se-á muito provavelmente em catástrofe, com o governo a preparar-se já para evocar, para a justificar, essa ficção que dá pelo nome de autonomia universitária.
Olhando para os nossos cursos de filosofia, ou de letras e ciências sociais e humanas em geral, a sua estruturação em dois ciclos – um de estudos graduados e outro de pós-graduados – com a duração respectivamente de três e dois anos, teria certamente várias vantagens. A internacionalização, a mobilidade dos estudantes, uma investigação mais autónoma fora do âmbito lectivo, uma melhor e mais estreita organização do curso por etapas estruturadas: tudo isso se poderia desenvolver a partir desta reforma. E as desvantagens pareceriam, à partida, mínimas. No fundo, no caso das letras, apesar das diferenças terminológicas, tratar-se-ia de um regresso ao tempo em que os cursos universitários eram mais demorados, mais sérios e mais exigentes, durando cinco anos e exigindo, no final da licenciatura, como ainda hoje em países mais sérios como a Itália, uma pequena “tese de licenciatura”. Que, terminando os três anos do ciclo de estudos graduados, os estudantes se chamassem “licenciados” e pudessem ser apelidados de “Dr”, tal pareceria, à partida, perfeitamente inócuo. E que, na conclusão dos cinco anos de estudos, após a apresentação de uma pequena tese, alguém ostentasse o título de “mestre” em vez de “licenciado”, tal seria também, apesar de um pouco ridículo para as nossas tradições académicas, relativamente suportável.
Acontece que tudo isto seria assim, interessante e sugestivo, se o nosso governo não visse em todo o processo de Bolonha senão sobretudo a oportunidade para ter como um luxo – e consequentemente recusar financiamento público – aos estudos universitários pós-graduados. Tal quer dizer que, ao contrário de os dois ciclos de estudos serem integrados num processo independente, mas contínuo, de formação, é de prever que o corte entre estes seja, em Portugal, elevadíssimo. E o desastre já se anuncia aqui: imaginemos uma maré de “licenciados” em filosofia, em história ou em clássicas com apenas três anos de formação académica e sem qualquer continuidade de estudos. Tratar-se-ia (ou tratar-se-á) pura e simplesmente de promover, com consciência e intenção, uma fraude grave, em que se atribui habilitações e se reconhece qualificações a quem manifestamente não as tem nem pode ter.
Assim, confiando numa réstia de sensatez por parte de quem decide e contando com que efectivamente – no final – possa decidir, é de prever, com alguma pena, que, colocadas perante a opção de organizarem o seu tempo de estudos entre o modelo de “3+2” e o modelo de “4+1”, as instâncias decisoras, nas faculdades em que seja o caso, optem por este em detrimento daquele, ou seja, que preservem a actual estrutura dos cursos em prejuízo de um modelo que, havendo condições, poderia ser a expressão de uma sua alteração qualitativa. Bolonha será assim, para nós, uma das típicas reformas políticas da República Portuguesa: uma grande e profunda discussão acerca de “reformas estruturais” para que tudo, no essencial, se mantenha exactamente ou na mesma, ou pior.
(Alexandre Franco de Sá)


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