Publicado por: fgalvao | Setembro 5, 2007

Parménides

Visite o nosso novo site – http://www.forumfilosofia.pt.vu

Parménides

(postado pelo utilizador Uno)

Deve ter nascido por volta de 515 e falecido não antes de 450. De acordo com uma asserção muito controversa de Platão, teria vinda a Atenas cerca de 450 e teria encontrado o jovem Sócrates. É possível que tenha sido aluno de Xenófanes. Sabemos que conhecia a doutrina de Heraclito, que ridiculariza. Ficaram-nos 155 versos da sua obra, redigida em hexâmetros.

1. A introdução alegórica – O poema começa em tom solene: «As águas que me transportam conduziram-me tão longe quanto o meu coração podia desejar, pois me conduziram-me tão longe quanto o meu coração podia desejar, pois me conduziram e colocaram na via famosa da deusa que, sozinha, dirige o homem que sabe através de todas as coisas.» Guiado por donzelas, que lhe mostram o caminho, o carro de Parménides franqueia as portas do Dia e da Noite e chega diante da Divindade que lhe deseja as boas-vindas. W. Jaeger insistiu, com razão, no carácter iniciático, mesmo órfico, deste episódio do poema parmenidiano.

2. O Ser e o Não-Ser – Perménides é célebre por ter dito e proclamado que o Ser é e o Não-Ser não é. O Ser, sendo o que é, não pode ser negado, mesmo parcialmente, embora Parménides elimine todo o recurso ao movimento, à mudança e ao devir.
O Ser é, é não engendrado e imperecível, sem fim, «nunca era ou
será, pois é agora inteiro, simultaneamente uno e contíguo a si mesmo». É indivisível, imóvel nos limites de laços poderosos, imutavelmente fixo ao mesmo sítio; é sem falha, terminado de todos os lados, semelhante á curvatura de uma esfera bem arredondada; possuindo raios iguais a partir do centro, porque, nem maior nem menor, não poderia estar aqui ou acolá. Ignora, portanto, a dispersão e a reunião. Não pode ter vindo do Nada, é eterno e imóvel, ignora, por conseguinte, o tempo e o espaço.
Do que fica dito, tem de concluir-se que o não-ser não é. Como conhecer, ou mesmo nomear, o que não é? Sabe-se que, mais tarde, os Megáricos se refugiarão por detrás de semelhantes afirmações, para pretenderem que nós apenas podemos nomear o ser e que é impossível sair do princípio de identidade A é A, sob pena de definir uma coisa pelo que não é dela. Sabe-se também que, no Sofista, Platão cometerá o «parricídio», tomando a direcção oposta da afirmação de Parménides, que proporciona ao sofista a ocasião de pretender que não poderia afirmar o erro, porque o erro, sendo por definição não ser, não poderia ser nomeado.
Vê-se, pois, no que se funda a oposição tradicional do eleatismo e do heraclitismo. A filosofia do Ser, por um lado, e a do Devir, por outro, surgiram como dois pontos de vista opostos sobre o mundo, que vários filósofos procuraram conciliar, falando de um Devir do Ser ou mesmo de um Ser do Devir.
Todavia, a exposição da filosofia parmenidiana começa por apresentar grandes dificuldades a partir do momento em que se passa da oposição do Ser e do Não-Ser ao estudo das vias.

3. O problema das vias – A Divindade que fala a Parménides diz-lhe:

«Vem agora, vou-te dizer – e tu presta atenção às minhas palavras e guarda-as em ti mesmo – as duas únicas vias de procura que se podem conceber. A primeira, a saber, que o ser é e que é impossível para ele não ser, é a via na qual se deve confiar, pois segue a Verdade. A segunda, a saber, que o ser não é e que o não-ser é necessário, esta via, eu to digo, é um caminho onde não se encontra nada em que se possa confiar.»

Parménides fala, portanto, explicitamente de duas vias: a via da verdade, que diz como o ser é, e que é impossível que ele não seja; a segunda, que diz que o ser é, e que é impossível que ele não seja; a segunda, que diz que o ser não é e que o não-ser é necessário, via que não oferece qualquer saída.
Os intérpretes tradicionais (o que não quer dizer que sejam os menos perspicazes) dizem que não havia outro meio para Parménides de se recusar a pensar o não-ser senão afirmar que não se deve pensar nele. Mas, na Introdução à Metafísica, Heidegger pretende que, afinal, dizendo que não é preciso pensar o não-ser, Parménides pensa-o e eleva, assim, o pensamento do não-ser a uma espécie de conhecimento. Para Heidegger, devemos ter um conhecimento desta via intacta, que não podemos pisar, nisto, que ela conduz ao não-ser. Eis, segundo Heidegger, o mais antigo ensinamento da filosofia acerca do facto de que, ao mesmo tempo que a via do Ser, a via do Nada deve ser pensada e, sempre segundo Heidegger, ignora-se tudo na questão do Ser, quando se diz que o Nada não é Nada. Por mais interessante que seja, esta interpretação é discutível, mas tem o mérito de nos esclarecer sobre o pensamento do próprio Heidegger.
Um outro problema se pôs aos comentadores de Parménides: não haveria ali lugar para uma terceira via? Na segunda parte do poema, trata da via da opinião e tudo é apresentado sob a categoria da dualidade:

«Aqui ponho fim ao meu discurso digno de fé e à minha consideração que abarca a verdade», prossegue a Divindade, que acaba de falar da via do Ser, «aprende, a partir daqui, o que os mortais têm em vista, e presta atenção à ordem enganadora das minhas palavras. Os mortais têm, com efeito, dado a sua confiança à nomeação de duas formas, uma das quais não deveriam nomear, e é neste ponto que eles se afastam da verdade. Julgaram-nas opostas quanto à forma e deram-lhes sinais diferentes uns dos outros». É por isso que os homens pensam que todas as coisas estão cheias ao mesmo tempo de Luz e Treva.

Parece, pois, que nos encontramos perante uma terceira via, a da opinião, que não seria nem a via do Ser nem a do Não-Ser. Para numerosos comentadores, por exemplo Jean Wahl, esta terceira via seria apenas uma variante da segunda e seria, de qualquer modo, a via do erro. Para Nietzsche, esta segunda parte do poema corresponderia a uma primeira filosofia de Parménides, próxima de Anaximandro. Zeller e Gompers pensam que nos encontramos em face de um desenvolvimento no qual Parménides nos dá conhecimento do que seria a sua compreensão do mundo, se adoptasse o ponto de vista do senso comum. Para Diels, tratar-se-ia da exposição de uma teoria que Parménides criticaria, a de Heraclito, que pertenceria ao número dos pensadores bicéfalos de que se fala em VI, 5. Burnet pensa que Parménides visa antes os pitagóricos. Uma interpretação original e que fez época na história do eleatismo é a de Karl Reinhardt, que recusa as leituras precedentes e faz da opinião o resultado de uma queda original. Daí viriam os erros das nossas representações, de que poderíamos isentar-nos contemplando a verdade.
Heidegger insiste na importância da interpretação de Reinhardt, o qual, em seu entender, compreendeu e resolveu o problema tão debatido da relação entre as duas partes do poema de Parménides. Mas não seria posto em evidência o fundamento ontológico e a necessidade da relação entre a Verdade e a Opinião. Na Introdução à Metafísica, Heidegger retoma o problema e pretende que a via da opinião seria completamente diferente da segunda e constituiria uma terceira via, a do aparecer, que seria tudo menos a aparência. Esta via seria a do aparecer, enquanto via do ente que aparece de tal ou tal ponto de vista, seria a via dos pontos de vista, a via do aparecer, experimentado como pertença do Ser. Tal aparecer não seria mais que a Natureza, enquanto manifestação e eclosão do Ser. E pode afirmar-se do aparecer que pertence e não pertence ao Ser, porque, para Heidegger, o pensamento de Parménides não seria afastado do pensamento de Heraclito, para quem «a natureza gosta de se esconder». Por conseguinte, ainda segundo Heidegger, o homem que verdadeiramente sabe seria daquele que percorre as três vias: a do Ser, a do Não-Ser e a do Aparecer. Importaria finalmente unir as três vias numa espécie de operação nietzschiana ou hegeliana.
Ainda aqui podemos dizer em Heidegger interpreta Parménides em função das suas preocupações filosóficos e procura ver nele um dos seus percursores. Seja como for, atenta a ambiguidade de muitas passagens do texto de Parménides e o estado mutilado em que nos chegou o poema, talvez não se possa fazer melhor que meditar nas reflexões que pôde sugerir a quantos o leram.

4. O Fragmento III – Resume-se a poucas palavras, mas qualquer tradução é já uma interpretação. Uma tradução muito corrente é a que consiste em ler: «É a mesma coisa pensar e ser.» Vai mesmo ao ponto de ver nesta fórmula like na ancient cogito ergo sum. Mas Burnet protesta contra uma tradução que, em seu entender, é um arcaísmo filosófico e traduz: «Uma só e mesma coisa pode ser concebida e pode ser.» Jean Beaufret traduz por seu lado: «O mesmo, esse, é ao mesmo tempo pensar e ser.» Esta última tradução apoia-se uma interpretação de Heidegger em que vale a pena determo-nos.
Para Heidegger, o cristianismo teria deformado o sentido deste pensamento de Parménides. Seria contra-senso crer que o ser não é mais que o acto do pensamento. Conviria então perguntar o que significam, depois o que quer dizer por fim, que sentido convém atribuir… Seguiremos a análise que Jean Wahl faz desta exegese de Parménides por Heidegger… o reino que se abre e desenvolve na luz, o ser que é aparecer e manifestação…que se traduz por conhecer, é preciso não ver nele qualquer pensamento lógico. Conviria traduzi-lo por atender, no seu significado de acolher, deixar vir a si (daí o derivado entender-se o substantivo entendimento), e ainda por atender, no sentido de ouvir uma testemunha a quem se concebe a palavra. Assim seria o entendimento daquele que escuta e toma uma posição de vénia para receber o adversário e levá-lo a deter-se imediatamente. Por isso, para Heidegger… seriao acto de trazer o que aparece ao ser e o de o deter.
… designaria a unidade, não a da pura uniformidade e identidade como indiferença, mas como pertença recíproca do contrastante. Ou seja, segundo uma ideia cara a Heidegger, Parménides convergiria aqui com Heraclito falando da unidade dos contrários. Portanto, o verso de Parménides significaria que, entre o ser e o entendimento do ser, há uma espécie de contradição unitária, isto é, é preciso que ao mesmo tempo ambas as coisas saiam uma da outra e sejam unidas uma à outra.

«É preciso reconhecer que na aurora do pensamento, muito tempo antes que se viesse a formular um princípio de identidade, a própria identidade falara, numa sentença que afirmava: o pensamento e o ser têm lugar no mesmo e amparam-se mutuamente a partir deste mesmo.»
Seria um erro acreditar que podemos ir do Dasein ao Sein. O homem não possui o entendimento do ser, apenas porque o ser a ele se abre; é, pois, o Sein que explica a luz que pode haver no Dasein. Heidegger apoia ainda esta interpretação do fragmento… que traduz por: «O entendimento e a razão de ser do entendimento são a mesma coisa.» Por isso seria tomar uma saída privilegiada, que seria a via do Ser. Mas Heidegger pretende ir mais longe e mostrar que… equivale finalmente… aos Logos heraclitiano.

5. O fragmento VI – Traduz-se geralmente: «É preciso dizer e pensar que o Ser existe sempre» ou, «Deve necessariamente ser, o que pode ser pensado e de que se pode falar» ou «É necessário que uma expressão e um pensamento sejam» (Frändel). É difícil fazer uma escolha entre estas traduções, que, de qualquer modo, podem inscrever-se na interpretação clássica da ontologia eleática.
Aqui ainda, Heidegger dá uma interpretação, senão mais correcta, pelo menos original, esclarecendo-nos sobre o sentido do seu próprio pensamento e do movimento histórico-filosófico que a ele o conduziu. Sublinhando a importância do tempo, Heidegger, enquanto ambos são filósofos pré-socráticos detentores de uma forma de pensamento esquecida a partir de Sócrates, encontra aí uma teoria de Logos que aproxima da noção de heraclitiana. Traduz: «Há necessidade do dizer e entender é o ente no seu ser.» Esta passagem responde à pergunta: o que é o homem? … não é o modo algum um poder que estaria no homem, é o devir que caracteriza o homem e no qual está situado, avança na história e, realizando a sua aparição, atinge o Ser. Daí a célebre definição de Heidegger de que o homem seria o guardião, o pastor do Ser. Hoje, seríamos vítimas de uma velha definição zoológica do homem, que faz dele um animal racional:

«No quadro desta definição assentou a concepção ocidental do homem, tudo o que se denomina psicologia, ética, teoria do conhecimento e antropologia. De há muito tempo, somos sacudidos numa mistura confusa de ideias e concepções tomadas dessas disciplinas.»

Para Heidegger, há pertença recíproca e separação do homem e do Ser. Por isso, a essência do homem seria a sua existência.
Seja qual for o carácter discutível das interpretações de Heidegger, por aventurosas que sejam as suas afirmações filológicas, elas permitem reencontrar, iluminada por nova luz, a ideia tão simples de que o Ser não é a existência. Isso mesmo acentuava Étienne Gilson ao dizer: «A doutrina de Parménides conclui pela oposição do ser e da existência: o que é não existe ou, se quisermos atribuir a existência ao devir do mundo sensível, o que existe não é.»

Fonte: Os Pré-Socráticos de Jean Brun

Anúncios

Responses

  1. “..O QUE EXISTE NÃO É…” É NÃO É ?

    Gostei muito! Sucinto, Informativo para os leigos e Claro…

  2. Pretende-se que o SER não OPERA, faz-se OPERAR e que o EMPREGADO é o DEVIR…

    Existir é portanto pensar o Ser, por e para Não Ser, ou por Ser ?…

    Dilema Métafisico das Divindades…

    Mais uma vez Obrigado pela disponibilidade e pelo Tempo que dedicam á causa !

  3. Deve ter nascido por volta de 515 e falecido não antes de 450. De acordo com uma asserção muito controversa de Platão, teria vinda a Atenas cerca de 450 e teria encontrado o jovem Sócrates. É possível que tenha sido aluno de Xenófanes. Sabemos que conhecia a doutrina de Heraclito, que ridiculariza. Ficaram-nos 155 versos da sua obra, redigida em hexâmetros.

    1. A introdução alegórica – O poema começa em tom solene: «As águas que me transportam conduziram-me tão longe quanto o meu coração podia desejar, pois me conduziram-me tão longe quanto o meu coração podia desejar, pois me conduziram e colocaram na via famosa da deusa que, sozinha, dirige o homem que sabe através de todas as coisas.» Guiado por donzelas, que lhe mostram o caminho, o carro de Parménides franqueia as portas do Dia e da Noite e chega diante da Divindade que lhe deseja as boas-vindas. W. Jaeger insistiu, com razão, no carácter iniciático, mesmo órfico, deste episódio do poema parmenidiano.

    2. O Ser e o Não-Ser – Perménides é célebre por ter dito e proclamado que o Ser é e o Não-Ser não é. O Ser, sendo o que é, não pode ser negado, mesmo parcialmente, embora Parménides elimine todo o recurso ao movimento, à mudança e ao devir.
    O Ser é, é não engendrado e imperecível, sem fim, «nunca era ou
    será, pois é agora inteiro, simultaneamente uno e contíguo a si mesmo». É indivisível, imóvel nos limites de laços poderosos, imutavelmente fixo ao mesmo sítio; é sem falha, terminado de todos os lados, semelhante á curvatura de uma esfera bem arredondada; possuindo raios iguais a partir do centro, porque, nem maior nem menor, não poderia estar aqui ou acolá. Ignora, portanto, a dispersão e a reunião. Não pode ter vindo do Nada, é eterno e imóvel, ignora, por conseguinte, o tempo e o espaço.
    Do que fica dito, tem de concluir-se que o não-ser não é. Como conhecer, ou mesmo nomear, o que não é? Sabe-se que, mais tarde, os Megáricos se refugiarão por detrás de semelhantes afirmações, para pretenderem que nós apenas podemos nomear o ser e que é impossível sair do princípio de identidade A é A, sob pena de definir uma coisa pelo que não é dela. Sabe-se também que, no Sofista, Platão cometerá o «parricídio», tomando a direcção oposta da afirmação de Parménides, que proporciona ao sofista a ocasião de pretender que não poderia afirmar o erro, porque o erro, sendo por definição não ser, não poderia ser nomeado.
    Vê-se, pois, no que se funda a oposição tradicional do eleatismo e do heraclitismo. A filosofia do Ser, por um lado, e a do Devir, por outro, surgiram como dois pontos de vista opostos sobre o mundo, que vários filósofos procuraram conciliar, falando de um Devir do Ser ou mesmo de um Ser do Devir.
    Todavia, a exposição da filosofia parmenidiana começa por apresentar grandes dificuldades a partir do momento em que se passa da oposição do Ser e do Não-Ser ao estudo das vias.

    3. O problema das vias – A Divindade que fala a Parménides diz-lhe:

    «Vem agora, vou-te dizer – e tu presta atenção às minhas palavras e guarda-as em ti mesmo – as duas únicas vias de procura que se podem conceber. A primeira, a saber, que o ser é e que é impossível para ele não ser, é a via na qual se deve confiar, pois segue a Verdade. A segunda, a saber, que o ser não é e que o não-ser é necessário, esta via, eu to digo, é um caminho onde não se encontra nada em que se possa confiar.»

    Parménides fala, portanto, explicitamente de duas vias: a via da verdade, que diz como o ser é, e que é impossível que ele não seja; a segunda, que diz que o ser é, e que é impossível que ele não seja; a segunda, que diz que o ser não é e que o não-ser é necessário, via que não oferece qualquer saída.
    Os intérpretes tradicionais (o que não quer dizer que sejam os menos perspicazes) dizem que não havia outro meio para Parménides de se recusar a pensar o não-ser senão afirmar que não se deve pensar nele. Mas, na Introdução à Metafísica, Heidegger pretende que, afinal, dizendo que não é preciso pensar o não-ser, Parménides pensa-o e eleva, assim, o pensamento do não-ser a uma espécie de conhecimento. Para Heidegger, devemos ter um conhecimento desta via intacta, que não podemos pisar, nisto, que ela conduz ao não-ser. Eis, segundo Heidegger, o mais antigo ensinamento da filosofia acerca do facto de que, ao mesmo tempo que a via do Ser, a via do Nada deve ser pensada e, sempre segundo Heidegger, ignora-se tudo na questão do Ser, quando se diz que o Nada não é Nada. Por mais interessante que seja, esta interpretação é discutível, mas tem o mérito de nos esclarecer sobre o pensamento do próprio Heidegger.
    Um outro problema se pôs aos comentadores de Parménides: não haveria ali lugar para uma terceira via? Na segunda parte do poema, trata da via da opinião e tudo é apresentado sob a categoria da dualidade:

    «Aqui ponho fim ao meu discurso digno de fé e à minha consideração que abarca a verdade», prossegue a Divindade, que acaba de falar da via do Ser, «aprende, a partir daqui, o que os mortais têm em vista, e presta atenção à ordem enganadora das minhas palavras. Os mortais têm, com efeito, dado a sua confiança à nomeação de duas formas, uma das quais não deveriam nomear, e é neste ponto que eles se afastam da verdade. Julgaram-nas opostas quanto à forma e deram-lhes sinais diferentes uns dos outros». É por isso que os homens pensam que todas as coisas estão cheias ao mesmo tempo de Luz e Treva.

    Parece, pois, que nos encontramos perante uma terceira via, a da opinião, que não seria nem a via do Ser nem a do Não-Ser. Para numerosos comentadores, por exemplo Jean Wahl, esta terceira via seria apenas uma variante da segunda e seria, de qualquer modo, a via do erro. Para Nietzsche, esta segunda parte do poema corresponderia a uma primeira filosofia de Parménides, próxima de Anaximandro. Zeller e Gompers pensam que nos encontramos em face de um desenvolvimento no qual Parménides nos dá conhecimento do que seria a sua compreensão do mundo, se adoptasse o ponto de vista do senso comum. Para Diels, tratar-se-ia da exposição de uma teoria que Parménides criticaria, a de Heraclito, que pertenceria ao número dos pensadores bicéfalos de que se fala em VI, 5. Burnet pensa que Parménides visa antes os pitagóricos. Uma interpretação original e que fez época na história do eleatismo é a de Karl Reinhardt, que recusa as leituras precedentes e faz da opinião o resultado de uma queda original. Daí viriam os erros das nossas representações, de que poderíamos isentar-nos contemplando a verdade.
    Heidegger insiste na importância da interpretação de Reinhardt, o qual, em seu entender, compreendeu e resolveu o problema tão debatido da relação entre as duas partes do poema de Parménides. Mas não seria posto em evidência o fundamento ontológico e a necessidade da relação entre a Verdade e a Opinião. Na Introdução à Metafísica, Heidegger retoma o problema e pretende que a via da opinião seria completamente diferente da segunda e constituiria uma terceira via, a do aparecer, que seria tudo menos a aparência. Esta via seria a do aparecer, enquanto via do ente que aparece de tal ou tal ponto de vista, seria a via dos pontos de vista, a via do aparecer, experimentado como pertença do Ser. Tal aparecer não seria mais que a Natureza, enquanto manifestação e eclosão do Ser. E pode afirmar-se do aparecer que pertence e não pertence ao Ser, porque, para Heidegger, o pensamento de Parménides não seria afastado do pensamento de Heraclito, para quem «a natureza gosta de se esconder». Por conseguinte, ainda segundo Heidegger, o homem que verdadeiramente sabe seria daquele que percorre as três vias: a do Ser, a do Não-Ser e a do Aparecer. Importaria finalmente unir as três vias numa espécie de operação nietzschiana ou hegeliana.
    Ainda aqui podemos dizer em Heidegger interpreta Parménides em função das suas preocupações filosóficos e procura ver nele um dos seus percursores. Seja como for, atenta a ambiguidade de muitas passagens do texto de Parménides e o estado mutilado em que nos chegou o poema, talvez não se possa fazer melhor que meditar nas reflexões que pôde sugerir a quantos o leram.

    4. O Fragmento III – Resume-se a poucas palavras, mas qualquer tradução é já uma interpretação. Uma tradução muito corrente é a que consiste em ler: «É a mesma coisa pensar e ser.» Vai mesmo ao ponto de ver nesta fórmula like na ancient cogito ergo sum. Mas Burnet protesta contra uma tradução que, em seu entender, é um arcaísmo filosófico e traduz: «Uma só e mesma coisa pode ser concebida e pode ser.» Jean Beaufret traduz por seu lado: «O mesmo, esse, é ao mesmo tempo pensar e ser.» Esta última tradução apoia-se uma interpretação de Heidegger em que vale a pena determo-nos.
    Para Heidegger, o cristianismo teria deformado o sentido deste pensamento de Parménides. Seria contra-senso crer que o ser não é mais que o acto do pensamento. Conviria então perguntar o que significam, depois o que quer dizer por fim, que sentido convém atribuir… Seguiremos a análise que Jean Wahl faz desta exegese de Parménides por Heidegger… o reino que se abre e desenvolve na luz, o ser que é aparecer e manifestação…que se traduz por conhecer, é preciso não ver nele qualquer pensamento lógico. Conviria traduzi-lo por atender, no seu significado de acolher, deixar vir a si (daí o derivado entender-se o substantivo entendimento), e ainda por atender, no sentido de ouvir uma testemunha a quem se concebe a palavra. Assim seria o entendimento daquele que escuta e toma uma posição de vénia para receber o adversário e levá-lo a deter-se imediatamente. Por isso, para Heidegger… seriao acto de trazer o que aparece ao ser e o de o deter.
    … designaria a unidade, não a da pura uniformidade e identidade como indiferença, mas como pertença recíproca do contrastante. Ou seja, segundo uma ideia cara a Heidegger, Parménides convergiria aqui com Heraclito falando da unidade dos contrários. Portanto, o verso de Parménides significaria que, entre o ser e o entendimento do ser, há uma espécie de contradição unitária, isto é, é preciso que ao mesmo tempo ambas as coisas saiam uma da outra e sejam unidas uma à outra.

    «É preciso reconhecer que na aurora do pensamento, muito tempo antes que se viesse a formular um princípio de identidade, a própria identidade falara, numa sentença que afirmava: o pensamento e o ser têm lugar no mesmo e amparam-se mutuamente a partir deste mesmo.»
    Seria um erro acreditar que podemos ir do Dasein ao Sein. O homem não possui o entendimento do ser, apenas porque o ser a ele se abre; é, pois, o Sein que explica a luz que pode haver no Dasein. Heidegger apoia ainda esta interpretação do fragmento… que traduz por: «O entendimento e a razão de ser do entendimento são a mesma coisa.» Por isso seria tomar uma saída privilegiada, que seria a via do Ser. Mas Heidegger pretende ir mais longe e mostrar que… equivale finalmente… aos Logos heraclitiano.

    5. O fragmento VI – Traduz-se geralmente: «É preciso dizer e pensar que o Ser existe sempre» ou, «Deve necessariamente ser, o que pode ser pensado e de que se pode falar» ou «É necessário que uma expressão e um pensamento sejam» (Frändel). É difícil fazer uma escolha entre estas traduções, que, de qualquer modo, podem inscrever-se na interpretação clássica da ontologia eleática.
    Aqui ainda, Heidegger dá uma interpretação, senão mais correcta, pelo menos original, esclarecendo-nos sobre o sentido do seu próprio pensamento e do movimento histórico-filosófico que a ele o conduziu. Sublinhando a importância do tempo, Heidegger, enquanto ambos são filósofos pré-socráticos detentores de uma forma de pensamento esquecida a partir de Sócrates, encontra aí uma teoria de Logos que aproxima da noção de heraclitiana. Traduz: «Há necessidade do dizer e entender é o ente no seu ser.» Esta passagem responde à pergunta: o que é o homem? … não é o modo algum um poder que estaria no homem, é o devir que caracteriza o homem e no qual está situado, avança na história e, realizando a sua aparição, atinge o Ser. Daí a célebre definição de Heidegger de que o homem seria o guardião, o pastor do Ser. Hoje, seríamos vítimas de uma velha definição zoológica do homem, que faz dele um animal racional:

    «No quadro desta definição assentou a concepção ocidental do homem, tudo o que se denomina psicologia, ética, teoria do conhecimento e antropologia. De há muito tempo, somos sacudidos numa mistura confusa de ideias e concepções tomadas dessas disciplinas.»

    Para Heidegger, há pertença recíproca e separação do homem e do Ser. Por isso, a essência do homem seria a sua existência.
    Seja qual for o carácter discutível das interpretações de Heidegger, por aventurosas que sejam as suas afirmações filológicas, elas permitem reencontrar, iluminada por nova luz, a ideia tão simples de que o Ser não é a existência. Isso mesmo acentuava Étienne Gilson ao dizer: «A doutrina de Parménides conclui pela oposição do ser e da existência: o que é não existe ou, se quisermos atribuir a existência ao devir do mundo sensível, o que existe não é.»

  4. Greetings, I do believe your blog may be having web browser compatibility problems.

    Whenever I take a look at your blog in Safari, it looks fine however, when opening in I.
    E., it’s got some overlapping issues. I just wanted to provide you with a quick heads up! Aside from that, great site!


Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: