Publicado por: fgalvao | Janeiro 11, 2008

Empregabilidade em filosofia

De: Rolando AlmeidaA Filosofia no Ensino Secundário

Aproveitei a interrupção de festas para, sem qualquer devoção religiosa, comer mais um pouco que o habitual e encontrar amigos e familiares que só tenho a oportunidade de os ver nesta altura nataleira. Em conversa com uma jovem familiar de um amigo, estudante, no curso de engenharia informática, descobri que no currículo do curso tem duas disciplinas que nos são, a nós, da filosofia, muito familiares: lógica e retórica e comunicação. Quando interpelei a jovem sobre o programa das disciplinas, em ambas, me disse que eram uma chatice, uma conversa engraçada que pode ser, por exemplo, sobre futebol ou religião, mas que não via grande viabilidade daquelas disciplinas no curso uma vez tratando-se de disciplinas demasiado teóricas. Se, por um lado, há uma falta de reconhecimento cultural da utilidade de uma teoria, por outro, há aqui algo de muito estranho: é que ambos os professores destas disciplinas não possuem qualquer formação em filosofia, muito menos no pensamento crítico (que é só uma das derivações mais transversais da filosofia), isto segundo a jovem. Cabe então perguntar sobre o que andam os filósofos e a filosofia a fazer em Portugal?

É que, em muitas universidades do mundo, estas disciplinas são asseguradas pelos departamentos de filosofia e é precisamente por esta razão que as empresas recrutam cada vez mais licenciados em filosofia. Enquanto andamos em Portugal preocupados com o dasein, como se a filosofia se esgotasse no seu estudo, noutros países, a filosofia não deixa sobrar o seu terreno para outras disciplinas que mais não podem fazer que remediar um ensino correcto e rigoroso da lógica e da argumentação. E é lamentável que tal não aconteça em Portugal. Não quero tomar a posição do “8 ou 80”, muito à portuguesa, e, do nada, pensar que o mal académico da filosofia está em que toda a gente é heideggeriana. Creio que filósofos como Heidegger devem ser estudados e é desejável que muitos estudos sobre o autor sejam lançados. O que é estranho é que a filosofia em Portugal parece esgotar-se aí, quando as suas possibilidades de actuação são muito mais amplas. Perante esta realidade, o que é desejável acontecer na filosofia académica em Portugal? É desejável alterar significativamente os currículos dos cursos universitários, que estes possam elaborar os seus currículos mais direccionados para uma cultura de base ampla da filosofia. Quem desejar estudar um conceito específico de um filósofo, para tal, tem a continuação de estudos, tanto em mestrados, como em pós graduações ou doutoramentos. Os próprios professores não tem de ensinar as suas investigações particulares no conceito X ou Y, mas o currículo tem de obedecer a dois ou três objectivos amplos. Não faz qualquer sentido formar um aluno em filosofia a ouvir a história do dasein durante 3 ou 4 anos, quando não se ensina a este a reconhecer um modus tollens num argumento, ou a distinguir um modus tollens dum ponens. Queremos ter altos especialistas quando não temos o meio termo, que é a formação base de apoio que desperta outras potencialidades para a licenciatura em filosofia. Outro dos factores que me parece importante relacionado com os currículos dos cursos das universidades é que ainda se ensina muita história da filosofia em desproveito da discussão activa dos argumentos clássicos. A discussão activa de argumentos, implica a leitura activa e o treino intensivo do raciocínio. Mas os nossos cursos potenciam muito mais o decoranço e copianço do que o raciocínio. Mais uma vez saliento que não defendo que um currículo com a estrutura que aqui aponto constituísse a salvação da filosofia, uma espécie de mito sebastiânico. O que aqui defendo é que não vale a pena insistir numa formação específica, em conceitos muito especializados quando a base não é sequer encorajada a ser estudada. O relato que aqui faço baseia-se no meu conhecimento experiencial do meio académico e da realidade que aprecio nas escolas da formação de ex alunos de filosofia. Quando estudei lógica, a disciplina ostentava orgulhosamente cerca de 200 alunos num anfiteatro, muitos deles, que andavam há anos para fazer a disciplina. Mas muitos destes alunos tinham boas notas noutras disciplinas. Quer isto dizer que se pode, em Portugal, saber muita filosofia, sem saber as regras mínimas da lógica o que, para mim e para o que hoje em dia se faz em filosofia, é paradoxal. Saber filosofia sem saber as bases da lógica, repito, as bases, é passar ao lado da gramática do pensamento e do raciocínio. E é injusta a acusação que esta é a tendência da filosofia analítica e que não é representativa da toda a filosofia. A lógica só não foi importante no período a seguir á idade média, em que pouco se desenvolveu até aos estudos de Frege, Whitehead, Russell e outros. A lógica desde sempre foi central na filosofia, precisamente porque é a ferramenta que lhe oferece a consistência argumentativa. Em Portugal também por ignorarmos grandemente este aspecto central da filosofia, continuamos a perder empregos.
Nota: reconheço que uso o filósofo alemão Heidegger como exemplo irónico. Não é tanto por culpa do filósofo (que ainda assim não reúne muito consenso quanto à ideia de que seja o maior pensador do Século XX), mas mais pela linguagem obscura do mesmo que depois é frequentemente usada como arma de arremesso pelos académicos.

Parte II

Recentemente tem chegado algumas notícias, mesmo na imprensa portuguesa, de fenómenos para nós verdadeiramente bizarros. De repente, grandes empresas recrutam para os seus quadros, pasme-se, licenciados em filosofia! A formação filosófica que se tem em Portugal só permite apreciar um fenómeno destes quase como um delírio. Mas que vai a gente da filosofia fazer numa empresa? Talvez possam citar Heidegger a plenos pulmões entre secretárias e amontoados de papéis com planos financeiros, recibos, fichas de cliente, etc… Pode ser que saiba sempre bem ouvir “dasein” enquanto se trabalha para o lucro financeiro. Ou, quem sabe, talvez os filósofos sejam contratados para mostrar aos instrumentalizados funcionários que as suas existências vão muito mais além do trabalho que produzem.

Numa vertente pós moderna, o filósofo poderia, numa empresa, mostrar aos trabalhadores o vazio em que caíram as suas existências. Bem, numa última hipótese o filósofo na empresa poderia, enfim, partilhar um pouco do seu conhecimento com os outros funcionários. Em Portugal até temos por princípio que, como ninguém percebe muito bem os filósofos, eles devem dizer coisas interessantes. Quem sabe se os empresários pagam aos filósofos para dizer coisas interessantes! Mas será mesmo isto o que se passa? Se não é, então para que paga uma empresa um salário a um licenciado em filosofia? A resposta é simples. Paga ao licenciado em filosofia para fazer exactamente a mesma coisa do que qualquer outro seu funcionário a executar qualquer tarefa. Paga-lhe para que produza e ponha a empresa a produzir. Mas como vai o desgraçado do licenciado em filosofia contribuir para que a empresa a produza? A resposta aqui também é simples: fazendo aquilo que melhor deve saber fazer porque foi preparado para isso: pensar criticamente. As empresas vão buscar à filosofia o seu próprio produto, que é pensar criticamente. Esta é a potencialidade da licenciatura em filosofia. A relação até nem é difícil de compreender: sem conhecimento não há produção de riqueza e sem pensamento crítico não há progresso no conhecimento. Dúvidas? Claro! Com a formação que em terras lusas temos da filosofia, isto deve ser muito confuso. A realidade é que a maioria dos cursos de filosofia tal como são ministrados em Portugal para pouco servem. E ainda há quem se gabe disto como se a filosofia não pudesse ou não devesse produzir riqueza. Mas isto é falso por duas razões: 1º a filosofia pode e deve produzir conhecimento e riqueza, 2º sem riqueza torna-se muito difícil produzir filosofia. Talvez seja esse o nosso caso. Somos um país que não produzimos filosofia alguma a não ser muito pouca para consumo interno. Saídos das nossas universidades, dos nossos cursos de filosofia, quantos filósofos temos a publicar nas maiores revistas de filosofia da actualidade? Quantos temos que publiquem com alguma assiduidade obras de filosofia? Bem, poderíamos ter ainda uma produção razoável de obras de divulgação para o público geral, mas nem isso. Claro que não posso olvidar os esforços individuais, mas esses não conseguem sequer criar um corpo consistente de trabalho que possa projectar um trabalho em filosofia para o exterior. E porque os cursos de filosofia em Portugal não servem para nada, é natural que andem às moscas, uma vez que a maioria das pessoas não se pode dar ao luxo de tirar um curso só por gosto pessoal, sem o usarem para uma qualquer profissão. Ser licenciado em filosofia em Portugal pode até ser má onda. Eu próprio já vivi a experiência de ter de pedir emprego a um empresário, que olhou para mim com um ar irónico e me perguntou: “Mas você é de filosofia, o que é que sabe fazer?”. Ora, nos países de expressão de língua inglesa parece que ser licenciado em filosofia pode constituir uma vantagem, para, por exemplo, pedir emprego numa empresa. Mas isto acontece precisamente porque os alunos à saída dos cursos sabem pensar e argumentar. E acontece também porque as licenciaturas desenvolvem nos estudantes uma competência própria da filosofia, que é o pensamento crítico. Ora, o método do pensamento crítico, quando bem explorado, pode servir múltiplos fins. Ao contrário de nós que estudamos na maioria dos casos história da filosofia e, noutros, umas obscuridades heideggerianas, estes estudantes pensam sobre os argumentos clássicos da filosofia. Pensam exactamente com o mesmo método que Sócrates pensou, o analítico baseado no pensamento crítico. Ao passo que em Portugal temos horror em estudar lógica e quando o fazemos dá a ideia que aquilo não passa de um conjunto de símbolos sem qualquer aplicação prática, os estudantes americanos, por exemplo, dos cursos de filosofia, estudam lógica durante o curso todo e aplicam-na aos argumentos, aprendem a, com ela, argument. Em suma, aprendem a pensar consequentemente, que é coisa que nós não aprendemos a fazer nos cursos de filosofia em Portugal. E é esta a realidade que explica que em determinados países ser licenciado em filosofia pode significar que se tem uma intervenção activa na vida social e do trabalho e, em Portugal, a realidade é a oposta. Ser licenciado em filosofia implica, mais vezes que as desejáveis, ser obscuro, ter uma suposta superioridade intelectual, não porque se pense melhor que um gestor ou um economista, mas porque se tem o estatuto adquirido num diploma de filosofia e, numa boa parte das vezes, ser licenciado em filosofia em Portugal, implica dar-se um ar ridículo mostrando que se está afastado da realidade mundana, dispensando as misérias do mundo, porque se vive numa penetrante relação com o ser. A hipocrisia é que há sempre alguém a sustentar estas palermices.
Se queremos fazer guerras com o mundo, é errado procurar na filosofia uma arma de arremesso. Já escrevi anteriormente sobre isso (ver aqui). Ainda que as lutas nos possam fazer todo o sentido, não faz sentido matar a filosofia fazendo dela uma forma de exprimir a nossa guerra. Também é certo que não vamos filosofar para dentro das empresas multinacionais. Mas quem passa por um curso de filosofia, passa fundamentalmente para se treinar a pensar pela sua própria cabeça. A filosofia é por excelência o espaço de discussão crítica de problemas a priori. É o mesmo que estudar matemática para aprender a resolver equações. E quem passa por essa experiência na filosofia, é natural que possa aplicar a sua mente treinada criticamente ao que muito bem lhe aprouver. É esta a razão que explica que uma licenciatura em filosofia possa ser aplicada a muitos ramos da vida actual. E deveria também ser uma razão semelhante a esta que explica que, no ensino secundário português, a filosofia seja uma disciplina de formação geral. Ela aparece nos currículos como formação geral não para ensinar história da filosofia, não porque tenha sido decretado pela Papa, mas precisamente porque cabe à filosofia oferecer ao estudante a ferramenta do pensamento crítico. Essa ferramenta tem um nome, Lógica. Espero que agora se compreenda melhor porque é que um licenciado em filosofia, nos EUA, por exemplo, consegue com relativa facilidade – se souber argumentar, pensar criticamente – emprego numa empresa.

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Responses

  1. Pois. Eu até concordo com o que diz e saliento que há mais disciplinas próprias do pensamento filosófico que são muito úteis na sociedade laboral como a ética, a política, ou a estética para enumerar apenas algumas. A voz filosófica está silenciada em Portugal porque não nos reconhecemos uma identidade. Tudo isto pode mudar e já há louváveis nomes e esforços neste sentido… João Branquinho, desidério murcho, Jorge dias… porque não? a SPF não tem relação suficiente com os docentes do ensino superior nem inagem nem capacidade directiva para projectar profissionalmente os seus membros que vivem numa angustiante auto segregação por falta de confiança nos colegas e num desejo utópico de sucesso e estatuto intelectual… ou não será? Dasein?nada contra…. pode até ser muito útil ou pelo menos assim o dizem unanimemente os conferencistas estrangeiros que visitam portugal e dao palestras unicas a que nem sequer a comunidade filosofica atende… é preciso primeiro unir os filosofos… aprender a discutir construtivamente, e depois criar e estimular a livre criação das presentes gerações de formandos… nas palavras de quem mais em portugal faz pela filosofia: “há muito para fazer”.


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