Publicado por: fgalvao | Fevereiro 10, 2008

A caminho de uma Ibéria?

Um texto de David Duarte retirado do blog Café Filosófico de Évora

cabo de ler uma entrevista feita pelo Diario de Noticias a José Saramago. Esta entrevista, realizada no ano passado, incidiu, como não poderia deixar de ser , sobre as relações entre Portugal e Espanha. Nela José Saramago defende a união politica entre Portugal e Espanha num novo pais que teria naturalmente o nome de Ibéria.

Este novo pais merece toda a nossa atenção e não pode deixar de ser “tentador” para todo aquele cuja doença do nacionalismo não estreitou a sua largueza de espirito. Portugal e os portugueses não desapareceriam ao interioir desta Ibéria. José Saramago tem o cuidado de afirmar que a politica cultural e educativa (sobretudo no que se refere à lingua) seria da responsabilidade do governo autonomo de Portugal. Assim sendo Portugal e os portugueses continuariam a ser os donos dos seus destinos enquanto povo dotado de independência cultural, participando contudo num projecto politico e economico superior que lhe alargaria as suas proprias possibilidades de desenvolvimento (não nos esqueçamos que com dez milhões de habitantes, Portugal poderia facilmente tornar-se a região autonom mais poderosa ao interior desta Iberia).

No entanto varios problema de peso teriam de ser resolvidos antes que uma tal Iberia visse o dia. O primeiro de todos, e talvez o mais evidente, é o da natureza politica deste Pais : seria a Iberia republicana ou monarquica? Ou então, é possivel encontrar um outro tipo de regime apropriado à naturezaretalhada da peninsula?
Um segundo problema seria o da capital da Ibéria. Escolher uma capital não é um acto inocente pois com a capital escolhemos igualmente o projecto historico-politico-cultural do Pais. Para capital da futura Iberia 3 opções se evidenciam colocando problemas diferentes : Lisboa, Madrid e Barcelona. O problema de Lisboa é o de ser uma capital periférica, a capital mais ocidental da Europa, colocando o problema obvio da pertinência de uma tal escolha no contexto da União Europeia. Mais, uma vez conquistada aos Mouros e tornada, mais tarde, capital portuguesa, é ao sonho de unidade ibérica, unidade tão desejada pelo Conde D. Henrique e que justifica as suas relações atribuladas com a Galiza, que Portugal vira as costas. O problema de Madrid é o de ser a capital da centralização, digamos, falhada. Mas, sobretudo, de a ela associarmos não a Espanha mas Castela. Medo ridiculo se tivermos em conta o peso que cada uma das regiões teria na futura Ibéria. Finalmente teriamos a cidade de Barcelona. Entre as opções seria talvez aquela que, no actual contexto, faria mais sentido. Cidade cosmopolita por excelência (não o seria igualmente a Ibéria, espaço privilegiado do dialogo entre os 3 monoteismos, por exemplo), Barcelona é banhada pela nascente da Europa que é o Mediterrâneo. Escolher Barcelona seria, de uma vez por todos, afirmar que a Ibéria faz parte, irremediavelmente, da Europa e que é nela, discutindo com ela, que desejamos evoluir.

Contudo estamos muito longe de podermos colocar essas questões. A possibilidade mesma da existência de uma Ibéria parece-me depender de duas questões essenciais. A primeira relaciona-se com a comunicaçao entre Portugal e Espanha. Os tempos mudam e ja não nos ignoramos mutuamente como o fizemos durante varios séculos, mas o facto é que não nos conhecemos. Para tal contribui o facto, por exemplo, de não conhecermos, salvo claro através dos estereotipos, a historia de Espanha e a sua influência para a historia de Portugal e, imagino, vice-versa.

A segunda questão, e é esta que para mim torna impossivel a Ibéria pelo menos nas proximas décadas senão séculos, é o da relação de identidade que estabelecemos entre identidade cultural e independêcia politica. Esta relação de identidade é um pressuposto (mas toda a identidade é um pressuposto) que na realidade não é necessario. Um povo pode existir sem um Estado – a historia da Polonia nos serve de exemplo. Mas a verdade é que quando um povo se constitui enquanto realidade cultural, espiritual ele tende para a independência politica, mesmo se depois não sabe o que fazer com ela ou se com ela perde toda a sua riqueza cultural pois esta estagna pela simples razão de não possuir razão que seja para se afirmar. Resolvidas estas duas questões, podemos sonhar com uma Ibéria ou esta não passa de mais um reino imaginario?

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