Publicado por: fgalvao | Fevereiro 25, 2008

Por que não conhecemos a dimensão do universo?

Por que não conhecemos a dimensão do universo?

Eis um post convidado do professor do ensino secundário Rolando Almeida, sobre a divulgação científica e o ensino.

O post do Desidério “A Nossa Dimensão”, chamou-me a atenção para um aspecto relacionado com o ensino em geral e com as ciências em particular.

O que sei de ciência é muito pouco e, em grande parte, é saber proveniente dos livros de introdução às várias áreas da ciência — desde a química à física, biologia, etc. — que vou lendo. Sem esses livros o meu conhecimento seria muito menor e isto porque já no meu tempo de secundário a escola que tive não me forneceu uma base sólida em matéria de ciência.

Sou professor de filosofia do ensino secundário público há mais de uma década e todos os anos lido directamente com cerca de uma centena de jovens adolescentes. Muito me tem espantado a grave ausência de conhecimentos elementares de ciência nestes alunos. Quando, por exemplo, numa aula, refiro que um ponto brilhante que vemos no céu numa noite escura está a anos-luz de distância e poderá já não existir, os alunos, ao mesmo tempo que revelam uma curiosidade enorme, olham-me como se estivesse maluco e lhes pregasse uma partida, inventando uma fantasia qualquer.

Parece-me importante explorar algumas tentativas de explicar por que razão os alunos do ensino secundário manifestam este comportamento. Entre as explicações mais usuais e mais imediatas temos a ideia de que os alunos hoje em dia só se interessam por futebol e telenovelas, roupas da marca e telemóveis. Bem, se escrevo este texto é precisamente porque a minha experiência constitui um contra-exemplo a esta ideia feita. O que os alunos revelam não é falta de interesse mas desconhecimento dessas matérias. Sempre que falo destes assuntos, os alunos revelam muito interesse e entusiasmo.

Posso também referir o célebre argumento de que os alunos não sabem porque não estudam. Mas referimo-nos aqui a conhecimentos elementares, básicos, os quais, com uma formação sólida, os alunos dominariam ao chegar ao secundário, como dominam o saber respirar sem correr o risco de morte súbita.

Podemos pensar então que a responsabilidade é dos professores. Mas acontece que um aluno do secundário já teve dezenas de professores que lhe ensinaram física, química, «ciências da terra e da vida», etc. Significará isso que, por azar, só teve professores muito maus? Não parece.

Se a responsabilidade não é directamente dos alunos, nem dos professores, só nos resta uma alternativa. A responsabilidade desta ausência de conhecimento só pode dever-se ao método e aos programas de ensino, que não promovem um conhecimento sólido da ciência, da história, da música ou filosofia.

Acresce que os agentes da educação em Portugal actualmente pensam que no ensino técnico e profissional reside a sebastianina salvação. Ainda não compreendemos que um país com bons técnicos mas sem conhecimento tem de comprar no exterior a engenharia, para que os seus técnicos tenham assim trabalho. Mesmo do ponto de vista da economia este desprezo pelo ensino rigoroso das ciências não faz qualquer sentido. O nosso atraso deve-se, em grande medida, à falta de capacidade inventiva, que só se pode começar a cultivar com um ensino que promova o interesse pelas ciências e pelo saber em geral.

Retomo o exemplo dos meus alunos. Tenho por hábito levar livros de filosofia, a minha disciplina, mas também de introdução à ciência (muito devo à Ciência Aberta da Gradiva) para as minhas aulas. Todos os anos vendo indirectamente livros de introdução à ciência. Quer isto dizer que os alunos se interessam — mas não se podem interessar pelo que não conhecem, pelo que não é estudado nas aulas porque está ausente dos programas.

Esta experiência também me diz que há um trabalho por fazer no sistema de ensino em Portugal: a divulgação da ciência e do conhecimento. Os filósofos, cientistas, músicos, têm de sair das academias e realizar esse trabalho cativando os mais novos para essas áreas de interesse.

Nas notícias recentes do encerramento de alguns cursos no ensino superior (como física, matemática e filosofia), justifica-se esse encerramento alegando que não garantem empregos. Mas isto só é parcialmente verdade, uma vez que os alunos, no ensino secundário, não foram incentivados para o estudo da física, matemática, filosofia, etc. E sabemos que os mercados se dinamizam na sua inventividade e adaptação aos tempos, isto é, sabemos que é possível criar dinâmicas de mercado para cursos como filosofia, matemática ou física. De um certo ponto de vista é mesmo o contrário que ocorre: sem a dinâmica destas áreas, como podemos ter mercados? Será que queremos para toda a vida um nível intermédio em que só temos técnicos profissionais de mecânica, mas não podemos ter os nossos engenheiros mecânicos?

Este trabalho está por ser realizado e os sucessivos ministérios da educação portugueses não se têm mostrado propriamente disponíveis para seguir esta via, pressionados que estão pelas estatísticas políticas. Somos nós, aqueles que estão directamente envolvidos no sistema educativo, quem tem de assumir essas responsabilidades. Precisamos de mais articulação entre os vários níveis de ensino, de actualização dos saberes e de reformas nos programas, que tão vazios andam de conteúdos precisos e rigorosos. Que mais pode fazer um Ministério se tiver um cientista de renome a denunciar publicamente os erros do programa X no ensino básico e secundário? Se esse cientista está ligado a uma universidade, o que ganha futuramente são mais alunos a procurar as áreas científicas, maior empreendedorismo na ciência.

E os alunos ficariam a saber a real dimensão no universo.

Rolando Almeida
Professor de Filosofia no ensino secundário público, no Funchal, Madeira

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Categorias

%d bloggers like this: